Institucional

Abril Indígena integra ciência e saberes ancestrais

Publicado em 30 de Abril de 2026

Entre cantos, rituais e rodas de conversa, a Fiocruz Pernambuco realizou, nos dias 29 e 30 deste mês, o Abril Indígena 2026 - Encontro de Saberes: Territórios Tradicionais, Biocultura e Saúde. O evento reuniu cerca de 150 participantes em uma programação que celebrou a diversidade dos territórios indígenas e reafirmou a importância dos saberes ancestrais na construção da saúde coletiva.

 

 

Com a presença de povos indígenas de diferentes territórios, como os Fulni-ô, Pankará e Xucuru, com os quais a Fiocruz PE realiza trabalhos de pesquisa contínuos, o encontro promoveu o diálogo intercultural e a valorização de práticas tradicionais relacionadas ao cuidado, à espiritualidade, à preservação ambiental e ao bem viver. Ao longo dos dois dias de evento, rituais, manifestações culturais, palestras, rodas de conversa, círculos de cultura e cine-debates criaram espaços de reflexão sobre temas como territórios tradicionais, biocultura, direitos indígenas e práticas de cuidado em saúde.

 

A programação contou também com feira e exposição com participação de vendeiros indígenas, fortalecendo a produção cultural e econômica dos territórios e ampliando a visibilidade das iniciativas desenvolvidas por esses povos. Além disso, pesquisadores da Fiocruz PE e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) apresentaram experiências construídas em parceria com comunidades indígenas, reforçando a integração entre ciência e saberes tradicionais.

 

Para o diretor da Fiocruz PE, Pedro Miguel dos Santos Neto, a produção científica da instituição precisa estar diretamente conectada às necessidades reais dos povos indígenas. Ele ressaltou que a pesquisa não pode existir apenas para a publicação de artigos acadêmicos ou reconhecimento científico, mas deve servir para responder às demandas históricas, atuais e futuras dessas populações. “A gente não existe apenas para estar atrás de uma bancada, nem para publicar numa revista luxuosa. A gente está aqui para dar respostas às necessidades que vocês têm”, pontuou.

 

Ao longo do evento, depoimentos como o da líder indígena Zenilda Xukuru (foto) emocionaram o público, ao falar sobre a oportunidade de contatos afetivos e troca de experiências proporcionada pelo encontro, além de destacar a importância dessa parceria com a Fiocruz. Segundo ela, momentos como esse permitem o reencontro entre parentes, a realização dos rituais e o fortalecimento da espiritualidade dos povos indígenas. “Isso chama fortalecimento da nossa cultura e da nossa espiritualidade”, disse.

 

A coordenadora de Ambiente, Atenção e Promoção em Saúde (CAAPS/Fiocruz PE), Naíde Teodósio, ressaltou que o encontro foi construído em conjunto, com responsabilidade e diálogo entre diferentes atores. “A realização do Abril Indígena representa o cumprimento de uma missão importante da Fiocruz enquanto instituição pública de ciência e tecnologia em defesa da vida e da saúde”, afirmou. A gestora destacou ainda a necessidade de fortalecer alianças pelo bem-viver, reconhecendo a relevância dos saberes tradicionais na produção do cuidado, da saúde e na formulação de políticas públicas. Para ela, é fundamental que as ações de ensino, pesquisa e extensão estejam em diálogo com outros conhecimentos e não apenas com o saber científico produzido dentro da instituição.

 

 

O encerramento do primeiro Abril Indígena da Fiocruz PE contou com a participação do presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Mário Moreira (na foto acima, à esq.), que lembrou a resolução apresentada pela então ministra da Saúde, Nísia Trindade, e aprovada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que colocou a saúde indígena como prioridade mundial. Segundo Moreira, esse reconhecimento consolida o papel dos povos originários como guardiões das florestas. “Não tem sentido discutir a preservação das florestas sem considerar o conhecimento de vocês, a cultura de vocês e a força que vocês têm nessa luta”, afirmou.

 

O ápice da cerimônia foi marcado por um momento de forte significado político e simbólico: a apresentação da Carta Política do evento. Resultado da construção coletiva dos participantes, teve como proposta consolidar os debates realizados durante o encontro e transformá-los em um documento político capaz de fortalecer o compromisso institucional com os territórios indígenas, a justiça social, a saúde coletiva e a valorização dos saberes tradicionais. Finalizada com um ritual, a atividade reforçou o protagonismo dos povos originários e o respeito às suas tradições e espiritualidade.