Institucional

Balanço de um ano da testagem para Covid -19 na Fiocruz PE

Publicado em 11 de Maio de 2021

Atenta à evolução dos casos de Covid-19 no Brasil e no mundo, há um ano a Fiocruz Pernambuco disponibilizou pessoal e equipamentos de última geração para realizar um trabalho de testagem para Covid-19, em apoio ao Laboratório Central do estado (Lacen/PE).  Com foco inicial nos testes diagnósticos dos profissionais de saúde e das forças de segurança estaduais, esse serviço teve sua estrutura adaptada, no seu segundo mês de implantação, para atender também aos trabalhadores da instituição com suspeita de Covid-19. 

 

Um grupo de 28 profissionais, entre técnicos, pesquisadores, pós-doutorandos e estudantes da Pós-graduação em Biociências e Biotecnologia em Saúde  foi reunido e treinado, utilizando a infraestrutura do laboratório NB3 da unidade, com o objetivo não só de realizar os testes diagnósticos em si, mas também otimizar protocolos já estabelecidos, melhorar práticas do diagnóstico, treinar pessoal de outros laboratórios e criar um banco de amostras para futuras pesquisas sobre Covid-19 que atendesse a todos os pesquisadores interessados, entre outros desdobramentos possíveis dessas análises. Desde o início dessa iniciativa, um total de 6.378 reações de RT-PCR foram realizadas, sendo 5.319 a partir de amostras do Lacen e 1.059 de amostras coletadas na unidade da Fiocruz - sendo 381 de servidores e 678 de parentes dos mesmos.

 

Com o serviço de testagem sendo ofertado também pela Fiocruz PE, o estado foi o primeiro do país a criar um protocolo para atender a profissionais de saúde, garantindo um melhor manejo da força de trabalho que atua na linha de frente com os pacientes de Covid-19 (Nota Técnica n° 6/2020).  

 

Por outro lado, a testagem de seus trabalhadores, realizada pela equipe Covid-IAM em conjunto com o Núcleo de Saúde do Trabalhador (Nust) da unidade, permitiu acompanhar o estado de saúde dos funcionários com sintomas suspeitos, tomar providências junto aos contactantes e fornecer o panorama da contaminação dentro da instituição, para ajudar a balizar as medidas a serem adotadas nos planos internos de contingência e convivência com a doença. 

 

No final de janeiro deste ano, toda a equipe envolvida nesse trabalho teve a alegria de receber a vacina. Veja o registro na matéria em nosso site.

 

Depoimentos - Os profissionais que manipulam o vírus no laboratório NB3 da instituição se voluntariaram para essa tarefa e enfrentaram desde então muitos sacrifícios em suas vidas pessoais, assim como a equipe do Nust e os demais profissionais da saúde que estão atuando na linha de frente da pandemia.  Trazemos abaixo os depoimentos de quatro desses profissionais, que revelam um pouco dos desafios enfrentados  

 

Constância Ayres –vice-diretora de pesquisa da Fiocruz PE  

“Lembro que participei a pedido da Direção de uma primeira reunião organizada pela Secretaria de Saúde do Estado no dia 31 de janeiro de 2020, para discutir a possível chegada da Covid-19 no estado de Pernambuco. Eu sugeri ao Secretário de Saúde a imediata descentralização do serviço de testagem, que naquela época era feito em apenas um laboratório no Brasil. Em março, já começamos a montar a equipe e treinar o pessoal para o uso do NB3, sob a coordenação de José Luiz e Cássia Docena. Foi bastante desafiador, trabalhar com pessoas de diferentes setores, alguns eu nem conhecia na época, alguns tinham sido meus alunos e outros já trabalhavam comigo. A motivação em cada um deles era evidente, mas o que me surpreendeu foi a elevada competência técnica da equipe e a força colaborativa com que trabalhavam, de forma incansável e sempre com o compromisso da entrega dos resultados. Aprendi muito com eles. A qualidade de tudo que foi produzido foi inclusive reconhecida pela equipe de qualidade do Lacen que veio nos visitar para acompanhar o processo de trabalho. Me orgulho muito do que foi feito aqui e me orgulho de termos pessoal especializado e disposto para o enfrentamento, de forma emergencial, de situações como esta da pandemia da Covid-19”.

 

Milena Paiva – pesquisadora, divide com Constância Ayres a coordenação geral das equipes de coleta e agendamento (Nust) 

“A princípio, como todo mundo, tive medo, medo de me expor, de ter que estar presente nas coletas (desde o início procurei estar presente para acompanhar os trabalhos). Veio esse medo de me contaminar, de levar contaminação para casa, para minha família, para meus pais. Mas quando a gente começou a trabalhar, quando organizamos todo o fluxo de trabalho, pelo contrário: esse medo desapareceu. Esse trabalho me fez sentir útil, me preencheu e na verdade só me fez bem, durante todo esse momento de pandemia. O maior desafio foi esse, de superar o medo e se adequar ao necessário para executar o trabalho com segurança. Mas que na verdade termina sendo extremamente compensador, quando a gente vê o conhecimento que temos ser aplicado e que podemos ajudar nesse momento.” 

 

Conceição Freitas – médica do trabalho (Nust) 

 “Trata-se de uma iniciativa importante e louvável. A equipe do Nust se empenhou muito para colaborar junto com a equipe de testagem, tanto do laboratório como da coleta. A gente deu o máximo para contribuir com essa iniciativa, que tem desdobramentos de apoio ao plano de contingenciamento, na questão de afastamento do trabalhador e do seu acompanhamento. É uma iniciativa importante para todos os trabalhadores do IAM.” 

 

Rodrigo Loyo –biomédico e doutorando em BBS, atua no Laboratório de Referência em Esquistossomose

 “Lembro que quando começou a surgir os rumores que o IAM iria montar uma equipe para ajudar nos diagnósticos da pandemia fiquei muito interessado em participar mesmo tendo comorbidades e sendo um risco, mas o ato cívico era mais forte que o medo, pois fiz minha graduação (biomedicina) em uma universidade pública assim como toda a minha formação complementar. Tive em minha mente como um dever retribuir a sociedade de uma forma mais braçal, efetiva me juntando a essa equipe. No começo das testagens eu fiquei na equipe que fazia a inativação do vírus e obtenção do material genético para enviar para a equipe da RT-PCR e com o avançar tivemos a chegada da sorologia e fiquei responsável pelo processamento de todos os testes sorológicos (área que tem mais afinidade com minha tese). Ao analisar toda a trajetória vejo que tive um crescimento profissional e pessoal incalculável, pois pude me conectar com pessoas incríveis que só conhecia de corredor e como toda boa instituição de ensino e pesquisa a troca intelectual foi (e está sendo) muito intensa durante todo esse período. Todos os ensinamentos (não só profissionais, mas muitos pessoais também) que obtive nesse período vou ter o orgulho de levar por toda a minha carreira profissional, mas o maior de todos é a sensação de dever cumprido.”

 

Pesquisa - A qualidade do trabalho da equipe e dos dados reunidos resultará em um projeto de pesquisa, intitulado A trajetória dos casos de covid-19 na Fiocruz-PE: uma análise clínica, molecular e imunológica, que se encontra em análise no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) neste momento. Já integram a equipe desse estudo os pesquisadores Constância Ayres, Ana Maria Aguiar, Luydson Richardson Silva, Michelle da Silva Barros, Milena de Paiva Cavalcanti e os alunos Rayana Carla Silva de Morais, Rodrigo Loyo e Victor Antão de Souza. A ideia é somar também a participação de pesquisadores do Departamento de Saúde Coletiva que atuam no campo da saúde do trabalhador e epidemiologia. O estudo visa acompanhar a evolução e desfecho clínico dos casos; correlacionar a evolução clínica com os resultados obtidos através da RT-qPCR e/ou sorologia; comparar os resultados do diagnóstico molecular e sorológico; avaliar a expressão gênica dos principais genes reguladores envolvidos com a resposta imune; correlacionar a análise imunológica com os dados de evolução e desfecho clínico dos pacientes.

 

Todos esses resultados alcançados com a testagem para Covid-19 partiram da união entre os profissionais que ao longo desse ano ficaram encarregados dessa tarefa. Fruto de uma sinergia entre diferentes expertises, pois o grupo foi integrado por membros de diversos departamentos da instituição. “Em um momento de distanciamento social conseguimos unir esforços para enfrentar a pandemia, dar um retorno para a sociedade e amparar a comunidade do IAM”, resume Rodrigo Loyo.