Institucional

Cine debate aborda saberes indígenas

Publicado em 27 de Setembro de 2019

Quem compareceu, ontem (26/09), à exibição do documentário "Mborayhu – O Espírito que nos Une" na Fiocruz Pernambuco, teve a oportunidade de conhecer os detalhes do processo de construção do filme, que dá voz a rezadores, pajés, parteiras e professores indígenas de aldeias Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul. Paulo Basta (Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)  e Islândia Carvalho (Fiocruz PE), ao lado dos representantes indígenas e historiadores Aparecida Benites - em Guarani denominada Kuñatãi Mbv'u Arandu - e Jhon Tailor - Ava Veraju, pesquisadores e realizadores do filme, promoveram um debate após a exibição do mesmo.

 

Os dois jovens, da etnia Guarani-Kaiowá, participaram da pesquisa desde o início, quando ainda eram graduandos do curso de História, na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul. Atuando como intérpretes/tradutores, ajudaram a fazer a ponte entre os pesquisadores da Fiocruz e a comunidade e seus costumes. “Desde então passaram a ser considerados pela nossa equipe como pesquisadores-colaboradores da Fundação Oswaldo Cruz”, explicou o produtor executivo do filme, Paulo Basta. O documentário é fruto do estudo “Práticas tradicionais de cura e plantas medicinais mais prevalentes entre os indígenas da etnia Guarani-Kaiowá, na região Centro-Oeste”. Também integrante da pesquisa, Islândia Carvalho destacou o quanto foi rica essa experiência onde o outro deixou de ser apenas objeto de pesquisa e se tornou co-participante. “Isso mostra um pouco das possibilidades que a gente tem quando realiza o trabalho de campo e quais são os possíveis desdobramentos”, declarou.

 

Integrando a mesa de abertura do evento, Aparecida Benites relatou a emoção com a realização do filme na aldeia e os resultados obtidos. “O processo que a gente teve durante esses cinco anos, para mim e para o Jhon, foi uma coisa inexplicável. Antes de conhecê-los (os integrantes do grupo de pesquisa) eu não sabia que na minha própria aldeia tinha muitas coisas que a gente podia aproveitar, que estávamos deixando de lado. E eles nos trouxeram o caminho de volta para a gente valorizar de novo, principalmente as plantas tradicionais”, falou.

 

 

Jhon Tailor explicou como o estudo, que a princípio buscava mapear os casos de tuberculose na reserva indígena, acabou se voltando para as plantas medicinais. “Dentro da concepção indígena, seja Guarani-Kaiowá ou outras etnias, quando a gente fala de saúde ela envolve tudo: cantos, plantas, famílias, a comunidade, é um sistema só. Não há uma separação”, esclareceu. Para ele, o projeto foi uma oportunidade de resgatar esses saberes da memória dos anciões, que considera como “bibliotecas” das memórias de cada aldeia.

 

De acordo com Basta, o documentário já foi exibido nas comunidades indígenas que participaram do estudo, que gostaram do resultado e se sentiram representadas. Para ele, o filme pode servir como ferramenta de luta política para as comunidades indígenas na reivindicação de direitos aos seus territórios e no campo da saúde, assim como material didático nas escolas. Além da Fiocruz PE, a película será exibida em outras unidades regionais da Fundação e terá seu lançamento oficial no dia 27 de novembro, na Tenda da Ciência, no Campus de Manguinhos (RJ). 

 

O filme, que em breve será exibido no Canal Saúde, já pode ser assistido na íntegra na VI Mostra VideoSaúde da Fiocruz. Acesse o link:

https://portal.fiocruz.br/vi-mostra-videosaude-mostra-nao-competitiva