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História das Pandemias encanta participantes da Aula Inaugural

Publicado em 26 de Março de 2021

Os alunos dos cursos de Pós-Graduação da Fiocruz Pernambuco começaram o ano letivo de 2021 assistindo a uma verdadeira aula da História das Ciências, mais especificamente da História das Epidemias. Convidado pela Vice-direção de Ensino da instituição, o médico infectologista e escritor de diversos títulos abordando a temática, Stefan Cunha Ujvari, proporcionou um agradável passeio por esse capítulo da humanidade. Demonstrando total domínio da temática, empatia e didática, Stefan fez uma apresentação que durou quase duas horas, para um atento público de 250 pessoas, que assistiram a palestra através da plataforma Zoom e do canal da Fiocruz Pernambuco no Youtube.

 

O evento começou com o diretor da unidade pernambucana da Fiocruz, Sinval Brandão Filho, dando boas-vindas aos estudantes e agradecendo ao palestrante pelo aceite do convite. Sinval também registrou a solidariedade de todos que fazem a instituição às famílias das 300 mil vítimas da covid-19, enfatizando o empenho de todos que fazem a ciência no enfrentamento da doença.

 

Fazendo um retrospecto das pandemias, da antiguidade aos tempos atuais, pegando como gancho a covid-19, Stefan começou a sua apresentação estabelecendo dois focos principais: o papel humano e o comportamento humano nas pandemias. Segundo ele, “na história, nenhuma epidemia nasce do nada, sempre tem o papel humano. Quer seja em alguma operação política, econômica, religiosa, social ou de invasão do meio ambiente. Sempre tem o papel humano no aparecimento de um novo agente infeccioso e sua disseminação. Da mesma maneira, sempre que aparece uma grande epidemia, com uma grande mortalidade, o comportamento humano se repete”. Assim, ele explica, “a humanidade fica num total desespero, num total pânico e daí ela toma várias condutas desesperadas que se repetem através da história.” 

 

A globalização e a busca por culpados, ocorridas agora na pandemia da covid-19, são episódios que se repetem na história das epidemias. O nascimento de um vírus novo, no final de 2019, a sua globalização em janeiro de 2020 e a culpabilização dos chineses por seus hábitos diferentes, como consumo de animais exóticos, são circunstâncias que também ocorreram em outros momentos históricos, mudando apenas os personagens.

 

Discorrendo sobre as onze pestes que acometeram o Império Romano nos primeiros séculos – entendido como peste tudo que era pestilento – o infectologista explicou terem o vírus do sarampo e o da varíola – que assim como o da covid-19 são vírus mutantes - chegado à Europa, vindos da Ásia e do Oriente Médio, graças à expansão do Império.

 

Outro período destacado pelo palestrante foi o da Peste Negra (1348), considerada até hoje a pior epidemia da história. Foi a pior peste, porque ela matou em dois anos, 1/3 da população europeia, o que correspondeu a cerca 25 milhões de mortos. Transmitida pela pulga do rato, a peste negra ou peste bubônica, entrou na Europa a partir dos portos das duas grandes potências econômicas naquele período: Veneza e Gênova. É dessa época que vem a primeira experiência da quarentena, imposta por Veneza, aos navios vindos de outras partes do mundo. Nessa época, o pânico era o mesmo que existe hoje: não só pelo número de mortos, mas os comerciantes preocupados que o comércio ia fechar, que a economia ia cair etc. Ainda na década de 1980, na Inglaterra, foram achadas covas coletivas de vítimas da peste negra, vestígios de vilas extintas pela peste. Naquela época também quiseram encontrar um culpado. Assim os judeus foram acusados de envenenarem os poços. Stefan explica que alguns historiadores argumentam que os judeus, por questões religiosas, tinham o hábito de lavar as mãos antes das refeições e por isso tinham menos casos de infecção fecal-oral. Por isso, era também os menos acometidos por episódios diarreicos. Daí, eram acusados de não adoecerem por saberem quais os poços que tinham aquele veneno que causava diarreia. Assim os judeus foram perseguidos e massacrados, especialmente na França e Alemanha. Assim como hoje existem grupos que desenvolvem crenças em torno da cura da covid-19, sem nenhum embasamento científico, na época da peste negra, alguns grupos acreditavam que a doença era castigo de Deus e começaram a se autoflagelar. Mesmo a igreja condenando a prática, a crença do autoflagelo se propagou por muitas cidades e com grande número de adeptos. 

 

A ciência por sua vez, explicou o advento da peste negra através da teoria dos miasmas. A Universidade de Paris foi incumbida de encontrar uma explicação para pandemia, e a Universidade achou que a conjunção de planetas Marte, Júpiter e Saturno, ocorrida anos antes, poderia ter atraído miasmas venenosos, que eram gases venenosos, vindos das profundezas da terra. Surgiu a figura da roupa medieval médica com máscara e roupa de couro, para evitar a inalação dos gases e a sua entrada pelos poros da pele. Essa crença de invasão dos miasmas através dos poros trouxe também a crença que a camada de gordura natural dos corpos podia servir de barreira para os miasmas, surgindo aí o hábito de não tomar banho diariamente para não acabar com essa proteção. Por essas e outras crenças, segundo o professor Stefan, a peste negra é um exemplo do comportamento humano que se pode extrapolar para os dias atuais.

 

Chamou bastante atenção daqueles que acompanharam a exibição da aula, a riqueza das fotografias e ilustrações apresentadas por Stefan Ujvari durante toda a apresentação. Sua explanação abordou em seguida as epidemias ocorridas no Brasil, começando pelas de varíola, sarampo e gripe, que dizimou 80% da população indígena, ao longo de muitos anos; a epidemia de febre amarela em 1849, que passou a ocorrer todos os anos, a exemplo do que acontece com as doenças atuais transmitidas pelo Aedes aegypti. 

 

A apresentação seguiu pelas teorias das raças superiores e inferiores, que relacionou entre outras coisas, o alcoolismo, a pobreza e a delinquência às doenças infeciosas. Assim como a epidemia de aids, que primeiro foi associada aos gays.

 

O palestrante mostrou situações semelhantes entre a pandemia da covid-19 e a gripe espanhola (1918), que começou em Kansas nos EUA e se alastrou pelo mundo por conta da Primeira Guerra Mundial, com medidas como a obrigatoriedade do uso de máscaras pela população e a construção de hospitais de campanha em barracões, instalações militares e repartições públicas. Também foram canceladas as disputas esportivas e apareceram receitas milagrosas para cura da doença. Na gripe espanhola, a população acreditava que o tabaco, o limão, a cachaça e o alho curavam a gripe e assim os estoques desses produtos foram zerados nas mercearias, assim como no caso da covid-19, no início da pandemia, acabaram os estoques hidroxicloroquina nas farmácias. Houve também um aumento na produção de caixões para dar conta dos números de enterros, campanhas de solidariedade para ajudar os desempregados e a abertura de novas covas ou criação de novos cemitérios.

 

A história do uso da hidroxicloroquina na pandemia de covid-19 é semelhante à ocorrida na epidemia de tuberculose (1890) com o uso da tuberculina. Ambas apareceram como a cura, mas logo se mostraram ineficazes.

 

Por fim, Stefan Ujvari contou um pouco da história da vacina, abordou a trajetória da Aids desde 1900 até a pandemia na década de 1980 e respondeu às perguntas enviadas pelo público. 

 

Para assistir (ou rever) essa aula, que está disponível no canal da Fiocruz Pernambuco no Youtube, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=XShCpLHK8pE